"Tudo com o tempo, tem tempo..."

Atualizado: 26 de jul.


Foto: Vanessa Aragão

08/06

"Precisamos falar de trabalhos. Colunas semanais no site. Minha e sua."
"Eita lasqueira! Sobre? Maternidade é? rs"
"Bom, isso precisamos pensar."

19/07

"O lance de escrevermos, decidiu qual tema e quando começa?"
"Tema: aquele que você quiser"
"Quando começa: quando você quiser"

Esse diálogo estava no meu whatsapp, na minha conversa com Adriele Regine. Entendi que hoje, o tema de abertura para esse coluna é formado por um triângulo dentro da minha cabeça: admiração, parceria e amor.


Preciso escrever no meu texto como essa história começou.


Descobri que eu tenho a escrita como projeto desde muito jovem, e é sempre curioso quando a gente se dedica a puxar da memória, reconhecemos nossos desejos mais genuínos nos acompanhando há um longo caminho.


Já contei essa história de maneira muito breve, mas aqui encontrei um espaço para desenhar a linha do tempo. Quando pequena eu sentava perto de minha mãe, enquanto ela fazia alguma coisa da vida doméstica, e ela me passava uma tarefa. Muitas vezes essa tarefa me foi dada quando eu não sabia ler nem escrever, então era uma figura numa página e ela me dizia "me conta a história que você está vendo nessa cena". Agora, de maneira muito poética posso dizer que nasceu ali a comunicadora. E na época do vestibular minha mãe nem foi a favor! Que ironia da vida, ela deu o ponta pé inicial! hahaha


Depois quando eu já sabia escrever, a indicação dela era que eu fizesse pequenos trechos da história por escrito. Mais tarde virou uma redação e depois paramos com isso. Ela assinou uma revista em quadrinhos para mim, eu ganhei um diário em algum momento, passei a ler e escrever para mim mesma, em silêncio.


Vou pular alguns anos na história, porque não tem nem cabimento falar de minha infância e adolescência todinha nessa coluna. Pelo menos não hoje! rs.


No ensino médio eu era da galera de humanas, desde a escola. E uma professora de redação me chamou e perguntou para qual curso eu prestaria vestibular. Espia! Eu, novinha, filha única de minha mãe, queria viajar e meu plano era ganhar o mundão! Disse a ela que estava decidida, escolhi turismo, inclusive participei de um evento só para estudantes da área e profissionais, quando eu ainda estava no colégio. Era uma certeza! hahaha


Mas eu sempre tive uma escuta muito atenta aos meus mais velhos, de verdade. E eu nem era de candomblé ainda, mas sei que esse ensinamento eu aprendi com meus pais, que aprenderam com seus ancestrais. Nós negros orientamos os nossos filhos, netos e aqueles que nos procuram pedindo alguma direção.


Isso está na minha essência e eu segui ouvindo o meu interior, depois que a professora me deu uma segunda opção. Sempre tive essa coisa sensorial também, se o corpo trava quando eu ouço ou vejo alguma coisa, é porque não é pra ser. Pode ser até através de outros estímulos, como sonhar, pensar, saber de uma história através de um amigo, etc. Hoje, aprendi a respeitar muito mais essa intuição. Mas posso reconhecer que naquele dia, na sala do terceiro ano, quando a professora baixinha me chamou perto da mesa dela e disse para eu tentar comunicação, meu corpo se alinhou com aquela ideia.


Busquei "possíveis profissões para quem estuda comunicação social" na internet, porque eu nunca tinha pensado nisso, então só sabia da bancada no jornal da TV e dos jornais impressos na banca. E um lindo horizonte se abriu na tela do computador, mas eu nunca imaginei que estaria hoje, escrevendo no site que tem minha grande admiração.


Essa é a minha primeira coluna para o Lendo Mulheres Negras. Quando eu falei no começo que queria contar a história toda, estava pensando em Adriele. Onde nasceu o nosso relacionamento, e ela nem sabia ainda. Mas para as coisas que eu posso deixar minha mente viajar (como eu queria na época da escola) eu escrevo direto, sinto a inspiração e vou dedilhando no teclado sim. É minha arte, minha melodia! Então parti do conto da menina com tarefa da mãe professora.


Em 2017 eu tive um freio de arrumação. Bagunçou tudo e eu me perguntei "o que eu quero fazer da vida para me realizar?" Deitada na minha cama, no meu terceiro apartamento depois de sair da casa de minha mãe, minha filha dormindo no berço, meu casamento prestes a acabar, eu ouvi a resposta do meu Orí "eu quero ser escritora".


Busquei na internet vídeos mulheres negras falando de livros, não achei ela, ainda. Mas cheguei no @lendomulheresnegras, no instagram, e era ali um lugar para seguir, pegar dicas de livros, talvez um dia participar dos encontros, conhecer a forma de pensar daquelas duas mulheres e seguir o meu caminho até a escrita literária.


Em 2018 participei de uma vivência para mulheres pretas em Terra Mirim, Simões Filho. E na hora da roda de conversa uma das mulheres se apresentou "oi eu sou Adriele Regine, cofundadora do projeto de leitura Lendo Mulheres Negras". Ela falou mais um monte de coisas, mas eu parei aí, pensando como era possível. Hoje, seguidora de Rita Batista, eu já sei que eu cocriei aquele encontro. hahaha


Brincadeira, eu sou gaiata quando estou me sentindo em casa. Me sinto assim escrevendo aqui. Mas o que quero dizer é, a gente precisa ter sensibilidade para perceber o que nos chama, o que nos convida. E por isso eu falo de admiração, porque nasce assim. E depois eu tive a felicidade de conseguir a parceria de Adriele, e hoje estou aqui escrevendo sobre amor, porque ela não precisa me dizer muita coisa, eu vou colar com ela. Sabe?


Nesse dia que conheci Adriele, conheci também Bruna Bastos (tatuadora), conheci Camila Carvalho (astróloga), conheci Monalisa Soares (especilista em cosméticos e plantas) e tantas outras, através da Cumba Cuidados (um projeto que fala de vivências e afro-referências) criado por Patrícia Pamplona (mestra sensei usui reiki e escritora, minha grande amiga), ao lado de Gabi, Sandris e Mil.


E também não é por acaso que essa inspiração me veio hoje. Terminei de ler "Kindred - Laços de Sangue" de Octávia Butler (escritora negra de ficção científica), depois vi uma mensagem que uma amiga mandou no direct e era um vídeo de Maíra Azevedo falando sobre amor próprio, vi um post de minha amiga Midiã Noelle falando de família, Dayane Oliveira postando sobre o seu trabalho, a sua empresa @asminascontent formada por homens e mulheres pretes, Val Benvindo num vídeo "arrume-se comigo - versão candomblé", Najara Black sambando em sua loja @nblack_21.


Mulheres negras que admiro me alimentam todos os dias. Na próxima semana celebramos mais um 25 de julho e já sei há um bom tempo a importância de comemorar e reconhecer as minhas parceiras dessa caminhada. Graças aos orixás, tenho uma rede de muitas mulheres pretas, que além de todas as lutas conseguem compartilhar muito amor.