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Uma deliciosa manga-rosa-madura


Foto: ROMAN ODINTSOV

Iniciar um novo ano lhe permite escolher viver algumas coisas que você não se deixa no âmbito normal da vida (leia-se demandas, boletos, trabalhos, obrigações das mais variadas). Assim, a magia de ter 24 horas para repensar as mancadas, as faltas, os excessos de 364 dias e ainda planejar mais 12 meses, nos dá a impressão de renovar não só a energia, como os desejos, as vontades e, principalmente, os sonhos.


Para mim, essa virada serviu para revisitar meus tantos eus, as tantas versões de mim que, ora fui aprimorando, ora fui deixando descamar e desprender deste corpo, como pele morta. Como cobra que troca de si ainda sendo ela, com todos os acertos e erros, com todos os ‘e se’, ‘talvez’ e ‘poréns’. E eu amo isso, numa intensidade e necessidade de alguém sedento devorando um copo d’água. Amo esse movimento e reconheço nele todas as minhas versões, todas as crianças, meninas, adolescentes, jovens, mulheres, anciãs, que habitam meu eu. Essas que, de tempos em tempos, florescem ou hibernam, mas seguem existindo e se transformando.


E nessa retrospectiva, através de tantas escritas que acumulo nesta jornada - sejam elas soltas e presas, desconexas e raivosas, apaixonada e afetuosa, acadêmicas e poéticas -, vi o tanto de lindo que é quando invento de compor narrativas-melodiosas carregada de eus e de tantas experiências que somo nessas três décadas. Fui lendo o alinhavo das palavras tecidas em sete, oito anos com o cuidado que destinaria a uma pessoa querida que me oferecesse manga-rosa-madura. Ali segui me reencontrando ao mesmo tempo que fui me despedindo do que não cabia mais. E desbravando esse terreno que evito (ou evitava) mapear, uma frase ressoou tão alto em mim, tão nítida, que eu nem sequer consegui prender no céu da boca e engolir de volta:


E não é que eu escrevo?!

Saiu. Uma, duas, três vezes, boca a fora, sem cerimônia, sem travas ou entraves, sem sequer trato… Palavra é intimidade. É cuidado, tecido no tempo. Tramado com atenção, junto dos fios de nós, dos outros e de todos. Faço dela escudo, reza e patuá desde de antes de aprender a juntar as letras no papel, desde que não sabia quais eram as escolas literárias ou como compõe metrificação e escansão de um verso. Antes de ter coragem de apresentar para um amor, amiga ou para o mundo. Mas, ainda que essa certeza tenha se instaurado, as perguntas permaneciam lá, disparando incisivamente em mim quando o espelho me encontrava:


Escritora? Tem certeza? Você? Sabe mesmo fazer isso?

Seja o sabotador, seja a insegurança, seja anos, séculos, de nãos. Seja todos os saberes desprezados por um sistema que não contempla nós… A pergunta continua lá.


O que valida o ser escritora? Ou quem valida que você pode e deve escrever? Quem diz o quanto suas palavras-histórias são capazes de expressar ideias, que irão tocar o outro de tantas formas, que nem o maior dos pesquisadores literários poderia traduzir?


Eu poderia aqui inventar respostas para todos esses questionamentos para você que, assim como eu, sente pulsar as palavras em si, mas que acha que não cabe neste lugar. Eu poderia desfiar aqui fórmulas, regras, métodos que alguém disse que funcionaria para uma escritora iniciante e esconder todas essas incertezas, só que não seria eu, nem todas as minhas versões passadas, atuais e futuras. Não seria a escritora em construção, minhas histórias não seriam capazes de transformar ou mover qualquer coisa em minha existência ou de quem está comigo nessa jornada.


Então, mesmo que as perguntas gritem alto, que os ‘e se’, ‘talvez’ e ‘poréns’ sejam ensurdecedores, prometi a mim e a todos os meus eus exercitar os tecidos, as tramas, os músculos das palavras-melodias. Decide que todo o dia será dia para tecer narrativas, que é preciso desafiar o sabotador e acreditar no que lateja e não se apaga, mesmo soterrado muitas vezes por tantas poeiras de vida.


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