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Você já se traiu hoje!


Foto: Muhammad-taha Ibrahim

Quantas vezes você se traiu neste ano? Ou neste mês?

Essa é a pergunta que tem me rondado a algum tempo, mas veio com toda a força nesse trimestre. E isso se dá de várias formas, seja no julgamento do reflexo do espelho, seja nas infinitas listas de metas e atividades que precisam ser concluídas e seguem sem o check-in final, seja na generosidade em olhar os entraves e me perdoar por não conseguir.


Esse texto não é a fórmula para deixar de não cumprir os tratos que fazemos com nós mesmos. Até porque eu sei que fazer listas menores, usar de certas ferramentas criativas, pode sim ajudar e muito no processo (eu sou designer gente, rs). Mas em semanas de exposed de traição e detrimento (sobretudo de mulheres pretas), a pergunta lateja em mim:


Quando nos traímos? Quando deixamos de lado o que é importante para nós em prol de alguém que não fará o mesmo? Ou quando priorizamos mais projetos de outras pessoas e esquecemos os nossos? Quando a lista de atividades se torna mais pesada do que prazerosa? Quando o nosso (bem) querer não está nunca no topo da lista?


Só nesta semana eu já me traí diversas vezes. Só nestes três dias eu me neguei e me anulei a ponto de sequer encarar o espelho. E tenho certeza que tantos outros meses, dias, horas, surgirão ao longo dessa minha existência. Não há como nunca se trair!


Mas, consegui identificar os momentos que deixamos de lado, seja consciente, seja com propósito, seja por amor, seja por necessidade, nos faz cientes de nós. Nos faz não desistir de tentar de novo, de não desacreditar daquilo que vamos deixando no último lugar, no cantinho empoeirado, o sonho esmaecido, sabe?!.


Eu vi a minha traição, no exato momento em que ela estava acontecendo. Mas ontem, entre burocracias, falta de água e comédias românticas velhas, óbvio que escolhi a terceira opção. Escolhi me trair, por uma infinidade de motivos. Porém hoje, eu me perdoei e voltei para refazer a minha lista. Voltei porque preciso pôr um selinho verde nas burocracias no fim do dia. Ter o prazer de riscar as demandas que se arrastam desde o início da semana e organizar a casa, para um respiro profundo deitada no chão quando acabar. Preciso ser fiel ao meu bem querer, ao meu bem estar, a minha criatividade, aos meus desejos de recomeçar, reiniciar e de não desistir de mim.


É neste lugarzinho, fino, complexo, delicado, que tudo se transforma. E eu acredito demais (eu sou designer, lembra?!). A revolução de todas as coisas, vem de onde conseguimos observar e mover a dinâmica, e muitas vezes de forma simples, de forma micro, mas com a densidade e eficácia que amplia e reverbera em tantos outros lugares. Então sim, iremos nos trair, seja cuspindo no prato que comeu, seja dizendo sim pra algo que sempre afirmamos que não, seja mudando nossos hábitos e alimentação, seja alterando a nossa rotina em função de algo ou alguém. Mas que, na mesma medida que nos negarmos, possamos nos perdoar (se preciso for!) e reajustar a rota, revirar o leme e nos lembrar que a fidelidade inicial e primeira, precisa ser para conosco hoje e sempre.

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