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Será que a gente sabe mesmo equilibrar todos os pratos?

Atualizado: 20 de out. de 2022

Foto: Vanessa Aragão

As vezes quando eu penso nas piores coisas que eu já vivi no passado, eu vejo junto com elas, lado a lado, algumas das memórias mais felizes da minha vida. E é nesse momento que eu tenho medo. De desapegar da dor e então perder também a lembrança do que foi tão bom. Em muitos desses momentos eu me questiono, se não seria uma criação da minha cabeça, sabe? Que na verdade nada naquela época nem foi tão bom assim, que eu inventei e desenvolvi ilusões para sobreviver aos tempos sombrios. Mas nunca consigo de fato chegar a uma resposta exata sobre isso. A minha pergunta as vezes encontra uns fatos irrefutáveis. E "contra fatos não há argumentos", não é mesmo? Mas acho que vivi me provando tanto durante muito tempo, e fui armazenando das formas mais dolorosas possíveis, várias dúvidas. Ainda hoje, acontece aquele click e numa fração de segundo eu também não acredito em mim. É duro demais escrever isso, mas também é libertador.


Gostar de alguém, incluindo gostar de você mesma, quando se chega em algum meio de caminho para a maturidade é foda pra caralho. Tem que ter disposição e coragem mesmo, para se cuidar e principalmente, se você quiser se relacionar com outro alguém. Cada um tem um mundo de experiências, desejos, traumas, memórias, gente que faz parte da história e que provavelmente o novo organismo vai resistir muito para se adaptar ao sistema. Gente preta ainda tem mais B.O. (a gente sabe!), então você precisa verbalizar suas necessidades para você mesmo, em primeiro lugar, e então também aguçar sua sensibilidade para perceber o outro.


E as pessoas que te amam, com seus defeitos também, elas te lembram que você merece amor. Só que você precisa estar atento para reconhecer elas. Podem estar na sua vida como seus pais ou irmãos ou alguém da sua família, um primo, uma tia. Ou podem ser pessoas de fora, que se esforçam muito para entrar, que batem na porta do seu coração inúmeras vezes.


Você precisa abrir a porta e deixar que elas entrem para amar você inteiramente. Amando, e outras vezes detestando suas imperfeições, mas respeitando e reconhecendo cada parte de você.

Uma vez eu comentei com alguém, que ver Viola Davis em How to Get Away with Murder, foi extremamente inspirador. Porque eu vi uma mulher negra retinta sendo endeusada pela sua inteligência, sendo rejeitada pela sua pele, também amada e desejada daquele jeito, também insana e espetacular, e mentirosa e frágil, e bela e intensa. Aquilo foi uma permissão para que eu fosse eu, finalmente.


Então quando leio o livro dessa mesma atriz hoje e vejo como ela descreve aquele momento criativo e esplêndido em sua vida, eu compreendo perfeitamente que ela estava sendo transformada pela oportunidade de viver aquela personagem. E sendo assim, era inevitável que ela compartilhasse com o mar atlântico de mulheres negras aquele poder.


A viagem para dentro de si mesma nunca tem fim. E uma parte essencial nesse caminho é saber que em meio aos momentos de solitude, também pode ser bom alterná-los com boas companhias.

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