Você se permite ser intensidade?


Foto: Vanessa Aragão

Eu me peguei pensando nisso, porque as vezes sinto dores que nem sei nomear.


Nunca vi minha mãe demonstrar que sentia o mesmo, nem minha avó, nem minhas tias. É estranho, parece que todas as mulheres antes de mim, conhecem o antídoto para não sentir essa dor, mas por algum motivo eu não consigo encontrar a receita.


Enquanto escrevo preciso parar, respirar. O dia é recheado de gatilhos para nossas dores mais íntimas. E eu fico me perguntando, será que elas sabiam disfarçar melhor do que eu?


Mas dizem que sentir a dor é importante para curar a ferida. E eu sigo titubeando nessa verdade, mas precisava mesmo sentir assim, desse jeito tão fundo?


Eu não planejo sentir essas coisas, meu coração acelera porque eu fico desesperada para controlar meus pensamentos e sentimentos. Como se alguém fosse me pegar e me cobrar: "quem disse que você pode sentir alguma coisa, preta?".


Os meus escritos por aqui não poderão sempre falar dos contos leves da infância, porque a minha vida de mulher preta é atravessada por uma montanha russa de silêncios e perdas.


A perda mais sentida foi daquela vez que eu me distanciei de mim, e fui além mar, sozinha, calada, sem remo.


Mas eu ainda sentia o pulsar de dentro, senti calor, e soube que precisava mergulhar. O mar me abraçou como fez tantas vezes, como ainda fará muitas outras.


A água que escorre das lágrimas sem freio, é a mesma que lava e faz você se sentir limpa, nova, purificada.


Essas dores aí citadas, todas sem nome, tiveram vários significados: medo, solidão, saudade, culpa, insegurança, ciúme, e tantos mais.


Me deu vontade de falar sobre a saudade.


Acho que tem muita história escondida nessa palavra.


Tenho a percepção de que eu, mulher negra no mundo, não estou permitida a sentir saudade.


Para camuflar essa proibição, uns dizem "nem é tanto tempo assim", "você é cheia de dengo", "isso é dependência".


Eu acredito que perdemos o direito de sentir saudade quando vimos nossos iguais, irmão, filhos, pais, amigos, amores, sendo levados para lugares tão distantes, que nem era possível imaginar o quanto estariam longe.


Pois na mesma régua, entendemos que não seria possível amar. Porque aí dá vontade de ficar perto, aí dá vontade de sonhar.


E passaram muito tempo ensinando para nossas mulheres que elas não tinham espaço para anseios.


Neste momento, reconhecemos nosso portal para o mundo, e temos cada dia mais força para gestar e parir nosso futuro inédito.